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30 de julho de 2012

Libido e Agressividade - Energia Psíquica Disponíveis à Ação



Sabe-se que o conceito de energia é complexo em si, mas sabe-se também que toda ação no universo requer energia, em forma e natureza diversa, passível de transformação de uma forma para outra, como visto em relação à energia elétrica em luminosa ou cinética. Assim do movimento de atração e repulsão das subpartículas atômicas, perpassando pelo movimento de um músculo do corpo à atividade psíquica, toda ação requer energia.

No âmbito das atividades mentais diz-se que a energia psíquica é necessária às ações desta natureza. A psicanálise trabalha com os conceitos de pulsão de vida e de morte, respectivamente libido e agressividade, como duas formas de energia psíquica necessária à ação das quais se  manifestam em atitudes e comportamentos.

Em se tratando da agressividade, ao contrário do que diz o senso comum, ela não é intrinsecamente boa ou ruim. Trata-se de uma força ou energia psíquica necessária às múltiplas ações do cotidiano. Por outro lado, são as ações e não a agressividade em si que determinam o caráter qualitativo de seu investimento. Se descarregada por meio da violência ou se utilizada para destruir os obstáculos internos que dificultam o equilíbrio psíquico é o que faz toda a diferença.

Por sua vez a libido é  denominada de pulsão de vida, por está associada ao amor, no que diz respeito às ações que criam, atraem, ligam os seres ou estes as coisas que representem objeto de seus desejos. Sempre no sentido de integrar os elementos. Em contrapartida, a pulsão de morte ou agressividade está representada pelas ações que visem à destruição, a repulsão e desintegração dos elementos. As duas formas de energias são necessárias a homeostase ou equilíbrio psíquico.

Considerando que este equilíbrio é rompido, toda vez em que o indivíduo é estimulado, a mente ou campo psíquico excita-se e esta elevação de cargas psíquicas, também denominada de tensão é experienciada com sofrimento. Quanto maior a estimulação, maior será a tensão e proporcionalmente o sofrimento psíquico. Por isso a mente precisa ser aliviada, descarregada por meio das ações – atitudes e comportamentos. A agressividade como a libido são formas de energia psíquica necessária a tais ações.

Considere uma situação em que um indivíduo caminha pela rua e tropeça numa pedra. A dor física sentida pelo indivíduo também lhe causa sofrimento psíquico por representar um estímulo que excita a mente elevando a quantidade de cargas psíquicas. Ora esta elevação de cargas ou tensão precisa ser descarregada de forma a reestabelecer o equilíbrio psíquico ou homeostase anterior a este evento. Como isto é feito?

15 de julho de 2011

DIA INTERNACIONAL DO HOMEM - QUEM É E O QUE SÃO OS HOMENS?

Por Marcelo Bhárreti
Historiador e graduando em Psicologia


Hoje 15 de julho dia internacional do Homem!

Por que homenageá-lo?

Quem é o homem?

Ou poderíamos questionar: O que é o homem?

Em primeiro lugar podemos pensar a homenagem como uma ação necessária. Quando homenageamos algo ou alguém fazemos por vários motivos, mas seja qual for a motivação tende-se a centrar atenção no homenageado. Esta atenção abre um leque de possibilidades reflexivas a respeito dele. Reflexões necessárias a uma compreensão mais aprofundada, que potencializem resignificações, redefinições, quebra de paradigmas e transformações.

O homem é-está! 

Você poderia questionar: Por que definirmos o homem assim? 

E eu lhe responder com outro questionamento: E por que não? 

9 de julho de 2011

Epistemologia da sexualidade humana: refletindo a perspectiva de Judith Butler


 Marcelo da Silva Barreto

Graduado em Historia
Graduando em Psicologia
 
 Quando se pretende compreender o ser humano e os aspectos que lhes dizem respeito deve-se considerar a complexidade que esta ação confere. Isto se deve pelo menos por dois aspectos básicos: Primeiro porque o sujeito do estudo também é objeto de estudo e quando objeto específico de estudo possui caracteres subjetivos como a sexualidade humana, o grau de dificuldade se eleva devido ao grau potencial de afetabilidade da relação sujeito e objeto de estudo. Segundo porque o próprio objeto de estudo é complexo em si, com infindáveis variáveis ou aspectos constitutivos. Sendo assim, não se explica o complexo, entretanto é possível uma aproximada compreensão, quando se adota uma postura multidimensional e inter-relacional de aspectos constituintes. Caso contrário, numa perspectiva unilateralista, corre-se o risco do reducionismo, limitando desta forma, a compreensão do complexo.

A sexualidade humana é complexa tal qual o ser humano é. Até que ponto o organismo biológico determina o comportamento? Ou seria o comportamento determinado pelas escolhas e/ou processo em que estas se dão? Talvez o problema destas hipóteses não esteja na diferença entre elas, mas justamente naquilo que estas têm em comum – a perspectiva determinista, que limita possibilidades extremando-as em opostos. Por que então não considerar a hipótese do comportamento humano influenciado pela convergência de múltiplos fatores e aspectos?

2 de julho de 2011

O SER COMPLEXO E SUA SEXUALIDADE

Por Marcelo Bhárreti


A sexualidade humana é complexa tal qual o ser humano é. Constituídos de aspectos múltiplos, pode-se considerar a síntese humana como o resultado da convergência de natureza psíquica-bio-sócio-histórico-cultural. A Mente e o corpo integram um único ser formando um contínum que só pode ser compreendido quando considerado a interação associada de partes formando a Totalidade (Self). Assim, considerando a sexualidade um dos aspectos do ser humano, compreendê-la mais aproximadamente de sua inteireza requer a priori a consideração desta dinâmica inter-relacional de aspectos múltiplos-constítuintes.
Ao tema sexualidade humana tende-se a considerar a dualidade entre o homem e a mulher e / ou o masculino e o feminino. Essa dualidade parece encontrar justificativa na percepção das diferenças entre este dois seres. Entretanto, antes de concentrar esforços no estudo das diferenças existentes entre estes dois seres vale ressaltar a natureza constituinte que os assemelham.
O que é o ser homem e o que o ser mulher? Onde está o feminino e o masculinho em um ser complexo? De que perspectivas podem-se considerar as diferenças que os identificam como seres distintos e em que aspectos este se assemelham?

26 de janeiro de 2011

MORAL, ÉTICA E FILOSOFIA



Prof. Vandinei Silva
- Licenciado em Filosofia
pelo Instituto Salesiano de Filosofia.


Diariamente nos deparamos com questões ou afirmações do tipo: Isso é moral, Movimento pela ética, ética profissional dos médicos. Esses são apenas alguns exemplos que nos fazem perceber que a moral e a ética fazem parte do nosso dia-a-dia e muitas vezes não percebemos porque já estão internalizadas em nós como questões naturais.   Mas o que é Moral? O que é Ética? Qual a diferença entre as duas? A moral é relativa? Esses são alguns princípios que tentarei trilhar neste pequeno texto.


CONSCIÊNCIA 

A primeira coisa que precisamos ter claro é que somos seres de consciência e é ela que nos distingue de outros seres justamente pelo alcance em nossa vida e em nossas ações. Para compreender melhor essa importância e esse distintivo humano suponhamos duas situações hipotéticas:

1. PAULO PERDEU A CONSCIÊNCIA

2. PAULO AGIU DE ACORDO COM A CONSCIÊNCIA.

Na primeira situação perder a consciência é perder o sentido da existência de nós mesmos e do mundo. Quando estamos despertos, esse sentimento nos acompanha durante toda a vida em todas as nossas ações. Trata-se de uma CONSCIÊNCIA PSICOLÓGICA, que é o conhecimento de nós mesmos e do mundo que nos cerca. Temos consciência, por exemplo, de existir, das lembranças e dos sentimentos que nos assalta durante toda a nossa vida, dos nossos estados psíquicos, de que há um livro em cima da mesa , de que o dia está chuvoso ou ensolarado. Portanto, a consciência se estende à experiência do meio em que vivemos. Portanto. A CONSCIÊNCIA PSICOLÓGICA REVELA QUEM SOMOS, O QUE FAZEMOS E QUE MUNDO NOS RODEIA.

Já na segunda situação o sentido que podemos abstrair de consciência fala de CONSCIÊNCIA MORAL. Esta consciência refere-se aquele pensamento interior que nos orienta, de maneira pessoal, sobre o que devemos fazer em uma determinada situação que nos deparamos. Antes de agirmos a consciência nos alerta e nos orienta emitindo juízos (como uma voz interior). Após a realização da ação, a consciência moral volta a se manifestar como um sentimento que pode ser tanto de SATISFAÇÃO (recompensa pelo que se fez de bom ou de acordo com a norma) ou ainda um sentimento de REMORÇO (condenação pelo que se praticou contra as normas ou contra aquilo que é determinado socialmente como tolerável).

Diferentemente de nós humanos que agimos e julgamos de acordo com uma consciência que nos rege constantemente os animais, por sua vez, são amorais. Estes não possuem consciência e as suas ações são determinadas ou pelo instinto ou por adestramento que condiciona. Para ficar bastante clara essa distinção entre o agir humano e agir instintivo, próprio dos animais irracionais, utilizemos a hipótese de uma situação de Fome. Os animais irracionais procurarão satisfazer sua necessidade de forma imediata e voraz. Já o homem pode optar por abstenção de alimento por estar fazendo regime, por motivo de protesto (em uma greve de fome), ou optar por um ou outro alimento de acordo com o que lhe apetece. Ou seja, o homem age dentro de um significado histórico e cultural.

Um exemplo muito comum das grandes cidades e rodovias do país é o ATROPELAMENTO- após um atropelamento o motorista responsável pelo acontecimento pode ter dois comportamentos diferentes. Ele pode prestar socorro/assistência à vítima ou fugir e se negar assumir qualquer responsabilidade pelo fato. Ele toma uma decisão e independente do que escolha ele torna-se responsável moral e socialmente pela sua escolha. Mas se nesse acidente ele perde a consciência, não terá nenhum comportamento, porque estará desmaiado, fora de sua consciência. Portanto, existem 3 componentes fundamentais da vida MORAL:

CONSCIÊNCIA - LIBERDADE - RESPONSABILIDADE

MORAL

A moral é algo prático e imediato que faz parte da vida quotidiana dos indivíduos e das sociedades. Isso se deve não apenas ao fato de tratar-se de um conjunto de regras e normas que regem as nossas ações, dizendo o que devemos ou não fazer, mas também porque está embutida em nossos discursos e juízos de valor.

As normas morais são regras de convivência social ou guias de ação, porque nos dizem o que devemos ou não fazer e como fazer. As normas morais obedecem sempre a três princípios. Primeiro, são sempre caracterizadas por uma auto-obrigação, ou seja, valem por si mesmas, independente do exterior, são essências do ponto de vista de cada um. O segundo aspecto é a universalidade, e são universais porque a moral é própria de todo ser humano, é uma característica imprescindível do ser humano, variando apenas com o tempo e com a cultura a que pertence, portanto ela é relativa. O ultimo princípio diz respeito á incondicionalidade, isto é, são praticadas sem outra intenção ou finalidade que não ela própria.

ÉTICA

A ética trata-se de uma REFLEXÃO filosófica da moral. É o CONJUNTO de valores e princípios que nós utilizamos para decidir as três grandes questões da vida:

O que Quero? o que Devo? e o que Posso?

17 de novembro de 2010

ETNOCENTRISMO - PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA E PSICOLÓGICA DO FENÔMENO

Marcelo da Silva Barreto
Graduado em História e graduando em Psicologia


O etnocentrismo é uma tendência a considerar as normas e valores da própria cultura como critério para avaliar as outras. (FERREIRA, 2008, p 383.0).

A estranheza diante a diferença é reflexo da percepção, ou seja, da interpretação que se faz diante o diferente. Esta interpretação é sempre realizada, tomando-se por centro de referência “normas e valores” da própria etnia, logo o termo “etnocentrismo” deriva da conjunção de [etnia + centro]. Etnia é sinônimo de grupo sócio-cultural homogêneo, que compartilha da mesma história e origem.

O “eu” é onde está o possível, o “outro” é estranho e ameaçador. Esta estranheza causada pela constatação à diferença é entendida como ameaçadora e, portanto, a reação obtida como resultado é auto-afirmação de valor, que hierarquiza a diferença, qualificando o “outro” como inferior, o que, em um contexto social, serve a justifica do discurso de dominação.

Contrapondo-se ao etnocentrismo está à idéia da relativização, que considera as diferenças como necessárias ao processo de identificação de cada grupo social. Assim, diferente do etnocentrismo, a relativização não hierarquiza esta diferença apenas identifica-a.

Os primeiros estudos antropológicos a respeito às diferenças basearam-se nas teorias evolucionistas de Darwin. Desta forma, o evolucionismo biológico e social serviu de modelo para explicar as diferenças.

Infelizmente, no passado, tais modelos explicatórios acabaram servindo a uns, como legitimadores das pretensões dominatórias sobre outras culturas. Assim, utilizando-se do discurso cientificista, já que se distanciava do propósito científico por excelência, algumas culturas sobrepujaram-se as outras, mascarando os verdadeiros interesses.

A antropologia, por sua vez passou por uma reestruturação. Assim, fazendo uma interação com outras ciências optou pela relativização como um recurso necessário e funcional para o estudo das diversas culturas que constitui a humanidade. Esta nova Antropologia aponta a relativização como um caminho para o enfraquecimento do fenômeno etnocêntrico e para o melhor conhecimento cultural.

Pedindo licença a Carl Gustav Jung (1875-1961) psiquiatra suíço e fundador da Psicologia Analítica, para uma interpretação jungana, no uso de novos termos e ideias a base de sua brilhante contribuição a Psicologia e a humanidade, o etnocentrismo pode ser compreendido também como um reflexo da imaturidade coletiva. Se a cultura identifica os seus membros, isto significa que uma auto-imagem é compartilhada coletivamente, uma expressão coletiva de um “Eu Coletivo” ou um “Ego Coletivo”.

O indivíduo inserido no meio social está em constantes transformações, apesar de manter estruturas básicas de sua personalidade, que o identifica e o singulariza. Esta relação de transformação e preservação é mantida por um conflito, ou uma dinâmica de forças psíquicas, que coloca em um extremo uma força transformadora instituínte, que opera no sentido de criar, produzir e em outro extremo, uma força conservadora, que opera no sentido de manter e conservar o criado, o produzido.

O “outro” tem fundamental importância à nossa constituição enquanto seres humanos. Nossa personalidade é constituída a partir da interação com o meio. É estruturada em um processo que relaciona temperamento, ou seja, nossos aspectos inatos e condições históricas-sociais do meio. Logo, apesar de possuirmos uma estrutura de personalidade, estamos em contínuo processo de relativa e gradual transformação.

O Ego representa a percepção de auto-imagem do indivíduo, o centro da consciência, mas que não o representa em sua totalidade. O Self, por sua vez é o centro de toda psique e constitui as dimensões consciente e inconsciente operando no sentido da integração psicológica. Logo a auto-imagem não corresponde à totalidade, mas é uma percepção parcial e/ou distorcida da essência.

A auto-imagem está na superfície da psique, na consciência em seus variados graus de distorção. É ameaçada, constantemente, tanto pelos aspectos inconscientes do próprio indivíduo, quanto os aspectos do ambiente, muitas vezes tornados, uma projeção do próprio inconsciente. Logo o (des) conhecido é também o (in) consciente e pode representar uma ameaça à auto-imagem, principalmente quando esta não está bem estruturada. O Ego reage ao desconhecido ou inconsciente rejeitando-o, tanto numa dimensão interna, pela repressão e recalque, quanto numa dimensão externa, pela projeção. Isto lhe garante, a priori, se estabelecer na realidade, sob os parâmetros de referência que possui.

É neste sentido, que o “outro” pode ser percebido pelo Ego como ameaçador, pois o “diferente” não preserva a auto-imagem. Por ser desconhecido e/ou estranho aos parâmetros de referência do Ego, pode ser percebido, a priori, como ameaçador. Logo, como reação, o Ego rejeitará o “outro desconhecido”, como forma de preservar sua existência.

Seguindo o mesmo raciocínio, pode-se considerar que coletivamente à presença do desconhecido, representado por outras etnias, pode ser interpretada pelo “Ego Coletivo” como ameaçador.

Partindo deste princípio, o etnocentrismo pode ser compreendido como uma atitude imatura do Ego Individual e Coletivo, uma reação primitiva e primária, pois pode ser transformada, a medida que processos reflexivos sejam instaurados, levando a conscientização e abertura as novas possibilidades de “ser-está” e “existir” no mundo, sem necessariamente atribuir valor hierarquizado a “diferença”.

Assim, do mesmo modo, que é necessário, a nível individual, conhecer, reconhecer, acolher, tolerar,  aceitar e negociar com os aspectos que constituem nossa personalidade, para integrá-los harmoniosamente a totalidade psíquica, se faz de igual necessário, a nível coletivo, o conhecimento, o reconhecimento, o acolhimento, a tolerância, a aceitação, e negociação com os “outros”, como forma de favorecer a integração harmoniosa  da diversidade ética.

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REFERÊNCIA

FERREIRA, Aurélio B. de Holanda. Miniaurélio: o minidicionário da língua portuguesa dicionário. 7. ed. Curitiba: Ed. Positivo, 2008, 896 p.


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1 de novembro de 2010

RESENHA: RESIGNIFICANDO AS DETERMINAÇÕES HISTÓRICAS DA SELEÇÃO DE PESSOAL


Autores:
Marcelo da Silva Barreto*
Renata Vieira**
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PAULON, Selmira Mainieri. Resignificando as determinações históricas da seleção de pessoal. Psicol. Cienc. Prof. v. 10 n.1 Brasília, 1990.


Graduada em Psicologia, Pós-graduada em Psicodiagnóstico pela PUCRS, Selmira Mainieri Paulon, também atua como psicóloga da Intersecção – Trabalho e Pesquisa em Psicologia Social em Porto Alegre-RS. Neste artigo, a autora problematizou o conceito de aptidão natural a partir de uma resignificação do conceito de natureza humana. Para isto ela fez uma retrospectiva histórica destes conceitos  partindo do surgimento da  Psicologia enquanto ciência até atualidade. Esta resignificação é colocada como fundamental na atividade de seleção de pessoal realizada pelo psicólogo organizacional e do trabalho.

Considera que a seleção de pessoal para determinada atividade se justifica na relação das aptidões humanas e as características inerentes a cada função, que requer a seleção adequada de determinado perfil para determinada função como forma de corresponder às exigências da atividade em si e favorecer a satisfação, neste aspecto, da pessoa que produz identificada com o que realiza. 

Uma outra consideração importante feita é de que o estudo e a compreensão das aptidões humanas são necessários para o melhor aproveitamento no trabalho. E que estes se dão no “campo psicológico”, sendo, portanto atribuição do psicólogo organizacional e do trabalho a seleção de pessoal.

Entretanto, levanta a questão: O que é a natureza humana e o que são as aptidões naturais no contexto do trabalho?

Fazendo uma retrospectiva histórica situará a construção do conceito de natureza humana com o surgimento da Psicologia, enquanto ciência, que data o final do século XIX e início do século XX, influenciada pela Escola de Pensamento dominante à época,  o Positivismo.
Coloca que o cognoscível que constituí a totalidade do universo é complexo. Por isso a necessidade de uma ordenação, que dê sentido e facilite a orientação para o conhecimento. Coloca ainda, que a construção deste conhecimento complexo se dá sobre estratégias múltiplas, com perspectivas que podem divergir e convergir em alguns aspectos do objeto cognoscível e suas relações com outros objetos. Assim se estruturam diversas linhas de pensamento na tentativa de produzir conhecimento a respeito a respeito da totalidade que constituí este universo.

Entre os diversos cognoscível está a relação do homem com o trabalho tornando-se objeto de estudo de várias ciências. A Psicologia se interessa por esta relação, pois foca o comportamento humano implícito nesta relação. 

Coloca que várias linhas de pensamento se ocuparam desta relação homem-trabalho. E uma das considerações feitas é de que o homem é capaz de produzir, e que a produção é a essência do trabalho. Segundo esta perspectiva, a atividade de selecionar pessoas para o trabalho a ser realizada pelo psicólogo só encontra sentido se for considerada esta essencialidade.

Assim, coloca ainda, que várias teorias foram desenvolvidas e deram suas contribuições relevantes, a seu tempo, à atividade psicológica de seleção de pessoal. Entre elas: A Teoria das Aptidões, através da Psicologia Diferencial; A Teoria da Divisão do Trabalho, através da Escola Marxista; A Psicotécnica e a Psicometria, através da Escola Positivista.

Considera também que tais linhas de pensamento que determinaram esta atividade poderiam também satisfazer melhor a compreensão da natureza humana, uma vez considerando esta prática psicológica como intercessora do homem com o seu modo de sobrevivência. Ressalta que isto não tem acontecido devido ao sentido que atividade tem tomado com bases em estudos práticos da Psicotécnica, que considera de modo limitado a relação “aptidões individuais para distintas profissões”. 

Assim, para compreender a Psicotécnica e a sua perspectiva da relação aptidão individual versus profissão, regressou-se ao final do século XIX aos laboratórios de Psicologia Experimental, onde a Psicologia cria laços estreitos com a Fisiologia. Ressaltando a predominância da Escola Positivista de Pensamento e Produção de Conhecimento considera-se que a Psicologia sofrera forte influência. A Psicometria é o reflexo da ênfase dada à medida, aos dados quantitativos, a objetividade, a previsibilidade, etc. 

Dando seqüência aos estudos realizados pela Psicologia Experimental, destacam-se os aqueles, realizados entre o final do século XIX e XX, sobre as diferenças individuais; as teorias fatoriais de inteligência, tipologias, etc. Além da contribuição de outras ciências sobre a hereditariedade, através de Galton, craniometria e antropometria, evolucionismo de Darwin.

A consideração das diferenças humanas reforçou a ideia de aptidões individuais. Aptidões estas cognoscíveis objetivamente ao modo positivista de conceber. Também consideradas biologicamente determinadas. As influências culturais que também constituem a personalidade não são consideradas pela Psicologia Positivista representada pela Psicotécnica. Uma Psicologia “subsidiária das ciências naturais e mais diretamente da Biologia”. Reflexo da influencia positivista – Escola de Pensamento que era dominante no meio científico à época. 

Ressaltando que os métodos Positivistas de produzir conhecimento científico eram pautados na concepção de um mundo físico, observável objetivamente. Daí os métodos quantitativos, a ênfase na medida, a necessidade de controle  e manipulação de variáveis, como forma de garantir a previsibilidade dos fenômenos. 

 Este pensamento dominante da Escola Positivista hierarquizou o conhecimento, que só era validado como científico se seguisse rigorosamente tais métodos. A Psicologia do final do século XIX e início do século XX se insere neste contexto seguindo tais paradigmas. Assim desvinculou-se da Filosofia e aproximou-se da Biologia e Fisiologia, ou seja, Ciências Naturais, que seguiam métodos positivistas, os mesmos utilizados na física clássica e na química.

Logo, o conceito de natureza humana para Psicologia Experimental, deste contexto, diz respeito aos aspectos biológicos e fisiológicos, que determinariam o comportamento humano.

À crítiva a esta ideia de natuerza humana é feita com base no pensamento marxista, que antagoniza este conceito quando defende que o homem é um sujeito  histórico, que produz, que realiza o seu destino. 

Assim, Marx tenta desconstruir a ideia dominante que atende os interesses da classe dominante e que legitima o poder de uns sobre os outros, ou seja, dos capitalistas sobre proletários. Uma vez que,  a crença no determinismo biológico distituí o homem do seu potencial de luta, não favorece a sua consciência e consequentemente o alienia.

Tal conceito de aptidão natural é considerado como retrógrada já que existe desde o século XV. Além de não considerar um determinismo biológico à aptidão, em outros termos, aptidão inata, não considera também um determinismo social ou ação combinada dos fatores. Por não considerar determinismos, ou seja, aspectos estáticos e definidores. Considerando-os desfavoráveis à compreensão das aptidões. 

Por outro lado, considera que a natureza humana é social, histórica e se desenvolve sobre o biológico, funções necessárias para agir sobre a natureza num processo de adaptação, transformação e construção do meio. Considera ainda o homem como “um projeto de vir-a-ser”, logo as aptidões são influenciadas por esta natureza humana, que se constituí histórica e socialmente e se transfoma continuamente no processo de existir.

Percebe como necessárias tais considerações para resignificar à seleção de pessoal tendo em vista a dinâmica que transforma continuamente a relação homem-trabalho. Partindo deste pressuposto, o psicólogo é um contribuinte da realização pessoal, do desenvolvimento, humano diante as condições de trabalho que o contexto capitalista oferece. Ressaltando que o psicólogo organizacional é um empregado, que desenvolve determinada atividade dentro de uma organização capitalista, mas que também é dever ético seu oferecer um serviço que proporcione bem estar a pessoas, a seres humanos. Além disso, na seleção de pessoal, o psicólogo deve considerar a oportunidade de conscientizar pessoas sobre seus projetos de vida, seus projetos profissionais, assim como as possibilidades concretas de realização deste a partir de seus trabalhos. 

Assim, a atividade de selecionar pessoas deve considerar as aptidões naturais, reflexo de uma natureza humana que se constituí histórica e socialmente transformando-se continuamente assim como seu contexto. Pessoas bem selecionadas significa pessoas identificadas com a atividade, e esta identificação passa por tudo que constituem estas pessoas. 

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 NOTA:
Marcelo da Silva Barreto é graduado em História e
graduando em Psicologia;

Renata Vieira é graduanda em Psicologia e
Estagiária da Secretária de Segurança Pública do Estado de Sergipe,
onde desenvolve trabalhos afins.

29 de setembro de 2010

A busca pelo essencial: "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" algodão doce para matar a fome de uma sociedade de consumo e existencialmente vazia.

Marcelo da Silva Barreto *



Diversas pesquisas realizadas por historiadores e antropólogos, têm mostrado que a subjetividade humana não é um fenômeno natural e universal, mas antes de tudo uma construção que se dá sob determinadas condições sócio-histórico-culturais. Assim tomando por análise o transcurso histórico do mundo ocidental, no que perpassa da Idade Média a Idade Moderna, vê-se a configuração de uma crise social que tem como elemento fundamental fomentador a perda de referências, representadas pela religião, etnia, família, entre outras. A lógica disso está na mudança progressiva do sentido das referências que sai de um extremo localizado no externo e volta a outro localizado internamente. A busca do essencial se dará no reverso deste sentido na interação inter-mundos.


É sabido que na Idade Média era dado aos povos conhecer o mundo a partir da perspectiva religiosa. Conhecimento este controlado pela Igreja Católica. O Teocentrismo legitimava o poder da igreja sob o conhecimento e consequentemente sob a sociedade, em sua maioria sem educação sistemático-instituída, sem acesso a leitura, sobre tudo sem acesso aos textos sagrados.


É neste contexto que um movimento artístico-filosófico-cultural, em reação ao poderio da igreja que sobrepuja a sociedade predominantemente estúpida, faz renascer da antiguidade clássica a razão, um instrumento indispensável pelos filósofos gregos para o conhecimento de si e do mundo.

Verdades absolutas são questionáveis num mundo cada vez mais em expansão com povos e culturas diversas. A razão devolve ao sujeito a possibilidade de reflexão. Pensar o próprio pensamento, a própria existência, o seu “lugar ao sol”, a liberdade.


Entretanto, a razão trás outras conseqüências num mundo de verdades questionáveis, a perda paulatina das principais referências. E quando o sujeito precisa pensar por ele mesmo, se dá conta de sua liberdade potencial, de sua individualidade, pode estar consigo mesmo, no íntimo de seus pensamentos, na subjetividade privatizada, que cada vez mais se naturaliza.


Se por um lado a razão dá as condições potenciais para liberdade humana refletida numa subjetividade privatizada, de outro lhe proporciona a angústia do ônus de pensar por si mesmo.


As teorias se opõem entre si, as bases do conhecimento verdadeiro não são mais as absolutas de outrora, nem a proposta de liberdade confere ao sujeito a felicidade que teria. A subjetividade privatizada entra em crise.


Com a Reforma Protestante o sujeito pôde repensar a Divindade. A religião reformada não perdera, entretanto o caráter referencial de antes, estrategicamente se estruturou e instituiu o livre-arbítrio dando ao sujeito o caráter de liberdade entre escolher o que era certo e o que era errado. O poder da escolha era sempre do sujeito, o referencial, entretanto continuava sendo ofertado pela religião.


Mas o ideal de liberdade continuou sendo vendido como uma mercadoria. É assim, que o ideal iluminista de “Liberdade, igualdade e fraternidade” fomentou de esperança a sociedade francesa servido, também de base para reflexão de outras nações, favorecendo a adesão da grande massa induzível.


Entretanto, que liberdade era essa, senão de uma burguesia economicamente forte, à esquerda das assembléias a exigir maior poder político, para menor intervenção do Estado e uma maior liberdade econômica, dos que detinham os meios de produção? A mesma liberdade informada e compreendida por outras classes sociais cada vez mais definidas?


A liberdade de fato é uma necessidade humana, a liberdade a partir do usufruto da consciência que assume a responsabilidade do próprio agir diante os efeitos de seus atos. Entretanto, quando não se tem consciência do processo por traz do aparente, a liberdade é experienciada com angústia.


Não há liberdade de pensamento, de fato, quando no ínterim do mundo interno há uma coletividade de “vozes de mercadores” a propaganear o sonho de felicidade. Sonho comprável, sonho vendível numa sociedade de consumo, que desesperadamente precisa compensar “vazios existenciais” suprindo necessidades substanciais e necessidades construídas, àquelas cada vez mais superficiais e imediatas, mas também efêmeras porque não compensam por não atenderem de fato as necessidades essenciais.


O resultado de um sujeito que se reconhece como indivíduo, mas que não aprende a lidar com o potencial de liberdade, e ainda sem referencias que lhe proporcionem relativa orientação é o acionamento de mecanismos de defesa contra um mundo aparentemente assustador e cruel. O individualismo instituísse como o reflexo coletivo de uma sociedade angustiada e vazia tentando compensar imensos vazios, consumindo.


O capitalismo de ontem e de hoje compreende bem esta dinâmica e por isso surge, permanece e renova-se nos bastidores de nossa inconsciência e passividade política, funcionando de forma a ofertar “algodão doce” para matar a fome de uma sociedade de consumo e existencialmente vazia.


Mas como compensar vazios que de fato nutram a o ser humano em sua totalidade? O que é este ser humano e o que lhe constitui essencialmente?


Infelizmente a psicologia não surgiu naquele contexto para satisfazer estas respostas, mas como reflexo de uma sociedade capitalista crescente processo de industrialização, que precisa funcionar como uma grande máquina a serviço de uns poucos, onde as engrenagens eram seres humanos, que precisam ser conhecidos em sua estrutura e dinâmica psíquica para melhor serem controladas, atendendo assim os interesses dos que estão no topo da pirâmide capitalista, àqueles que detêm os meios de produção e consequentemente o poder.


Por isso que, no final do século XIX, a psicologia científica surge e é legitimada pela comunidade científica ainda positivista, por proporem objetividade, previsibilidade e controle do comportamento humano atendendo o interesse do Estado, das Forças Armadas e de Empresas.


As diversas crises sociais existentes, durante toda história da humanidade, refletiram nas insatisfações predominantes destes contextos e impulsionaram transformações, desconstruções, reconstruções e a construção de novos paradigmas de ser, estar e se comportar num mundo coletivo de subjetividades privatizadas. Logo, os “vazios existenciais” precisam existir para que a humanidade insaciada sinta a necessidade de nutrir-se do essencial, já que “algodão doce” não alimenta, apenas engana a fome e satisfaz prazer imediato. O essencial precisa ser problematizado e buscando no mundo íntimo à medida que interagimos com o mundo externo e coletivo. O essencial será percebido à medida que a satisfação for mais profunda, que intensa, mas prolongada e processual que imediata.

REFERÊNCIA

FIGUEIREDO, Luís Cláudio M. In: Precondições socioculturais para o aparecimento da psicologia como ciência do século XIX: A experiência da subjetividade privatizada. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 208 p.


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*Historiador e graduando em Psicologia



23 de abril de 2010

MARGINAIS POLÍTICOS

"Penso, logo existo"
(René Descarte)

"Participo, logo sou cidadão"


A convivência social é uma necessidade do ser humano, que é dotado de vontade. Interagir, portanto significa está em contato com outros indivíduos, também dotados de vontades, e neste jogo das relações humanas o poder é a capacidade de realização dessas vontades. Os conflitos, neste contexto são inevitáveis.

A harmonia e emancipação da vida pública requerem o bom uso do poder, que deve está em função da coletividade. Na antiguidade grega, um modelo de democracia regia a administração das cidades-estados. Aqueles que possuíam a cidadania participavam diretamente desta administração, e as decisões realizadas nas assembléias refletiam na coletividade.

Na modernidade, a democracia é representativa, o que implica que alguns indivíduos são escolhidos para representar a vontade da maioria, no entanto, o indivíduo não está excluso deste processo, uma vez que elege seus representantes e tem o direito e o dever de fiscalizá-los, assim como através da participação política manifestar os interesses da coletividade. O cidadão político, neste contexto não é apenas o representante dos interesses coletivos, mas todo aquele que participa ativamente da vida pública.

Aquele, que não participa deste processo pode ser considerado um marginal político. Este se preocupa apenas com questões de ordem particular tornando-se cúmplice dos maus representantes, por ser omisso. O número de marginais políticos é diretamente proporcional ao de representantes políticos, que também estão preocupados com os próprios interesses e utilizam-se do poder que lhe foram conferidos para a realização de suas próprias vontades.

Desta forma, a marginalização política prejudica não somente aquele que se automarginaliza, mas toda sociedade. Participar de forma ativa da vida pública é exercer a cidadania, neste aspecto o verdadeiro cidadão é político e promotor da emancipação da sociedade.


Por Marcelo Bhárreti.

REFERÊNCIA:

GALLO, Silvio. Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia - Elementos para o ensino da Filosofia. 12ª ed. rev. e atualizada. São Paulo: Papirus, 2003, p. 25 - 32.

21 de abril de 2010

A Representatividade e a Identidade como fomentadoras da Sergipanidade

Sergipe é um Estado no Brasil, que como os outros têm suas particularidades, tem seu “jeito, seu cheiro e sua cor”. Mas, o representa Sergipe e quem é o sergipano? A busca por estas respostas permite de um lado a valorização do Estado e sua gente e de outro, a codificação fomenta o sentimento de sergipanidade.

O Brasil é formado por vinte e seis Estados e mais o Distrito Federal. Cada região é caracterizada de formas diferentes. Apesar das idas e vindas, desse povo brasileiro que se mistura, nenhum lugar é igual a outro, assim como sua gente.

Desde o processo de colonização do Brasil, quando este foi cenário para imigração de vários povos abrigando culturas diferentes, até os dias de hoje, que o processo de mistura cultural vem dando origem a novas culturas.

Fenômenos como a globalização, por exemplo, é uma das formas contemporâneas de choques culturais num processo que desencadeia na adaptação regional, permitindo assim uma cultura resultante, num processo contínuo de transformações. É neste entrelaço cultural que são formadas o “jeito, o cheiro e a cor” de cada região.

Onde Sergipe está nisto tudo, o representa o Estado e quem é o sergipano? Uma discussão deste nível não poderá ser limitada a este trabalho, mas a abordagem desta temática já denota o valor atribuído a sergipanidade. È de extrema relevância a consciência da identidade para a valorização da mesma.

Sergipe, como outros Estados brasileiros, recebeu e recebe gente oriunda de diversas culturas. O mesmo processo de influências, de mistura cultural, adaptação regional e cultura resultante e metamorfósica, que acontece em todo território nacional também acontece aqui.

Falando de cultura resultante, percebe-se
, por exemplo, o jeito reservado do sergipano, desconfiado, mas ao mesmo tempo hospitaleiro.O jeito de falar, suas expressões e gírias também caracterizam e particularizam o sergipano. Expressões como: “Gota Serena; Desdobro; Barriar; Fio do Canso; Fio do Cabrunco” entre outras tão freqüentes, que se passam despercebidas, mas que fazem parte do cotidiano sergipano, só se escuta aqui.

O sotaque é também outro fator particularizante do sergipano. Em outras regiões do Brasil costuma-se dizer que o nordestino fala da mesma forma, mas isso não é verdade. Geograficamente, abaixo de Sergipe, o Estado da Bahia apresenta sotaque bastante diferente, assim como acima, no Estado de Alagoas percebem-se algumas semelhanças, mas é notável a diferença.

Uma diferença básica nos sotaques baianos e sergipanos é a forma de pronunciar o “d” e o “t”, quando acompanhadas do “e” com som de “i” e o próprio “i”, assim como acompanhadas do “o” com som de “u” e o próprio “u”.
Enquanto na Bahia o “d” e o “t” acompanhada de tais vogais levam um “h” na pronúncia, em Sergipe, principalmente nos interiores do Estado, este efeito sonoro é percebido quando “d” e “t” acompanham “o” com som de “u” e o próprio “u”.

Note a diferença: Na Bahia pronuncia (dhia, thia, muito e doido), enquanto em Sergipe (dia, tia, muitho e doidho). Qual o certo? Isto não é importante, o que vale é a diferença que permite identidades distintas.

Quanto aos estilos musicais e a gastronomia, pode-se falar do Forró e do Caranguejo, mas talvez alguém diga: Não são exclusivos dos sergipanos. Porém, a resposta a esta colocação retoma aos conceitos de origem cultural e resultante. Logo, onde houver forró e caranguejo haverá pessoas diferentes dançando, ouvindo, produzindo, temperando e comendo de formas diferentes.

Sendo assim, em Sergipe o Forró e o Caranguejo são sergipanos, assim como são sergipanos os intelectuais ilustres como: Silvio Romero, Tobias Barreto, Faustos Cardoso, Olímpio Campos, Laudelino Freire, entre outros atores histórico-sociais. Como também o são, não menos ilustres: A Véia dos Shoppings, O Garoto do Tchan, A Mulher da Boneca do Banese, entre outros que fazem a parte da paisagem representativa sergipana e que não são menos importantes.
São sergipanos ilustres o(a)s açougueiro(a)s, o(a)s padeiro(a)s, o(a)s carpinteiro(a)s, o(a)s pedreiro(a)s, a(o)s costureira(o)s, o(a)s artesãos(ãs), dona(o)s de casa, professores e alunos, operário(a)s e administradores. São ilustres todos aqueles que fazem parte da história de seu Estado e que não são menos importantes por serem anônimos, porque antes de tudo são sergipanos por nascimento ou por adoção.

A constante busca por uma identidade, configurada em múltiplas faces, é um trabalho que deve ser perseverante. Para fomentar o sentimento de sergipanidade é necessário antes de tudo um trabalho que permita saber o que representa Sergipe e quem são os sergipanos. Desta forma o valor começa a partir do (re)conhecimento.

Torna-se necessário uma ação conjunta dos Organismos Estatais, das Instituições d
e Ensino, assim como de todos aqueles que vêem como de fundamental importância o sentimento de pertencimento e identidade para nutrir o sentimento de sergipanidade.

A representatividade e a identidade podem ser fomentadoras da sergipanidade, uma vez que a valorização permita a coesão. Por que é importante esta coesão? Pergunte a um soldado diante um exército inimigo, ou um torcedor vibrando pelo seu time, ou a um participante de uma equipe disputando uma gincana. Pergunte e não se conforme facilmente com a resposta.

Por que é importante a sergipanidade? Pergunte primeiro o porquê você precisa de um registro de nascimento e de pessoa física, entre outros documentos de identificação. Não está satisfeito? Então se imagine em um país qualquer, com um idioma que você não domina, numa situação de desconforto, em que você precisa de alguém e de repente você identifica pelo “jeito, cheiro e cor” um brasileiro. Consegue imaginar o quanto você se sentiria em casa na presença deste seu conterrâneo? Tudo isto não é apenas importante é sem dúvida de fundamental importância. O sentimento de pertencimento e a identidade aproximam os seres.

O sentimento de sergipanidade pode nascer a partir destes questionamentos: Quem eu sou, o que faço, como faço, por que faço, o represento e por que sou importante? Pergunte-se! Ser sergipano é antes de tudo ser diferente.



Por Marcelo Bhárreti

27 de fevereiro de 2010

A VIDA NAS RUAS

José de Oliveira Júnior

A VIDA NAS RUAS: UM OLHAR SOBRE O COTIDIANO DOS MENINOS E MENINAS MORADORES DE RUA DA CIDADE DE MACEIÓ-AL.



Caro internauta a partir de agora estarei mais presente no blog, já havia postado algumas poesias e neste momento posto um artigo acadêmico sobre a vida nas ruas, um estudo onde procuro discutir a condição dos meninos e meninas moradores de rua. A vivência com essa população excluída da cidade de Maceió me fez pensar sobre as leis e ações governamentais e não-governamentais. O que temos feito por nossas crianças e jovens? O que queremos para o futuro dos jovnes em situação de vulnerabilidade social e cultural? No artigo procuro discutir estas questões para que possamos refletir sobre nossas práticas enquanto indivíduos dotados de direitos e deveres. A linguagem usada no artigo é acadêmica, se quiserem saber em linhas gerais leiam o resumo abaixo e quando tiver um tmpo a mais clique no continue lendo...
por José de Oliveira Júnior

RESUMO

A partir de um trabalho realizado como Educador Social de Rua na Organização Não-Governamental, Projeto Alternativo de Apoio a Meninos e Meninas de Rua de Maceió - PAAMMRM, Centro Erê, no final do ano de 2003 até o período de junho de 2004, pude realizar algumas observações participantes e escutar algumas histórias de vida dos meninos e meninas que perambulam pelas ruas da cidade. De posse desse material e tendo a curiosidade cientifica para explanar a respeito desse tema é que surge esse artigo. Esse artigo versa sobre a vida desses meninos e meninas que sem ter para onde ir, e o que fazer habitam a rua e fazem dessa sua morada. Porque meninos e meninas vivem nas ruas? O que leva esses indivíduos terem a rua como habitat? De que maneira se comporta com seus “semelhantes”? Pretende-se conhecer esse universo do cotidiano para que possamos refletir sobre a condição humana de indivíduos que tem leis específicas, como é o caso do Estatuto da Criança e do Adolescente criado no ano 1990, e grupos de “defesas” instituídos, mas não possuem proteção contra a violência que sofrem diariamente nas ruas. A exclusão social causado pelo sistema vigente no atual Estado brasileiro e, mais particularmente no Estado de Alagoas, deixa em condição de marginalidade e miserabilidade crianças, adultos e velhos. Somos violentados a todo tempo e a toda hora. A violência que crianças, jovens e adultos vivenciam nas ruas acontece de diversas formas, ela é simbólica e física.

Palavras-chave: Violência, Cidadania, Cotidiano, Cidade e Sociedade.


1. INTRODUÇÃO

(...) Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios suplicados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os suplicou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos (...) seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós... (?)(Ribeiro: 1998, pág. 120).

Durante alguns anos a população que vive nas ruas da cidade de Maceió vem aumentando significativamente. O aumento dessa população é tão crescente e visível que se torna fundamental investigar essa situação para melhor subsidiar ações de órgãos governamentais e não-governamentais voltadas para mudar esse quadro. No final do ano de 2003 passei a trabalhar como Educador Social de Rua no Projeto Alternativo de Apoio a Meninos e Meninas de Rua – PAAMMRM, Centro Erê, permanecendo nessa instituição até junho de 2004. O intuito dessa observação foi entender o porquê da vida nas ruas e o que leva a organização desses indivíduos em grupos.

Decorridos alguns meses de observação e participação dentro dessa instituição passei a conviver com essa realidade cotidiana vivida pelos meninos e meninas que freqüentam a Praça dos Martírios e a Feira do Rato. Desde então sentimos a necessidade de descrever, compreender e analisar a vida desses indivíduos. Essas pessoas transformam a rua em casa. A cada ano que passa muitos indivíduos buscam a rua para sobreviver.

Por não se conhecer quem são, quantos são, como vivem, etc., pretende-se descrever os locais onde esses indivíduos perambulam e habitam para que se possa ver mais de perto e analisar essa realidade. No Estado de Alagoas não existem dados suficientes registrados a respeito dessa população e sobre a realidade que vivenciam. De onde vêm, porquê vieram, porquê permanecem. Pesquisamos dados existentes junto aos órgãos municipais, estaduais e das organizações não-governamentais para avaliar como essa problemática vem sendo monitorada e considerada através desses órgãos.

Procurar-se-á compreender o universo de vida e cotidianidade dos meninos e meninas que moram nas ruas de Maceió-AL, tomando como foco de observação a Praça dos Martírios e a Feira do Rato. Buscaremos uma compreensão do cotidiano destes indivíduos que constroem a marginalidade da história desse Estado. Quando falamos sobre marginalidade queremos nos referir aqueles indivíduos que estão à margem da sociedade e da cultura e que são excluídos do processo de construção social e cultural. Daquele que “vive fora do âmbito da sociedade ou da lei, como vagabundo, mendigo ou delinqüente” (Ferreira, 1986: pág. 1092). Um indivíduo marginal. A exclusão social provoca uma acentuada desorganização no modus operandi de uma sociedade causando, com isso, uma forte desestruturação e desorganização na vida dos indivíduos. Pretende-se ir à busca dos acontecimentos e dos significados que levaram esses indivíduos ter a rua como casa.

2. ESTAR NAS RUAS

Inquietando-se com essa realidade de vida cotidiana e tendo conhecido e conversado com vários transeuntes habitantes da rua (meninos e meninas), surgiu à curiosidade científica de construir a dinâmica interna desse grupo mostrando como vivem, dormem, comem, conseguem dinheiro para uso de drogas, exercem suas regras, normas, convenções, liderança, organização, etc.
Na cidade de Maceió-AL o índice de meninos e meninas que moram nas ruas vem aumentando consideravelmente. Esses indivíduos buscam as ruas como alternativa de sobrevivência. Na Praça dos Martírios e na Feira do Rato no coração da cidade esses indivíduos se organizam e criam códigos grupais baseados em hierarquias sociais.

Os meninos (as) que elegeram a Praça como sua morada (casa) vive em grupo e compartilham seus sofrimentos. A maioria desses indivíduos durante o dia dorme, perambulam pelas ruas em busca de dinheiro e comida. Os comportamentos são os mais dispares possível. Riem e choram com muita “facilidade”. Compartilham entre si os amores e desamores. São indivíduos independentes e seguem o que o instinto e a necessidade ordenam.

O uso da cola é o fator predominante entre esses indivíduos e, além da cola utilizam maconha (canabis sativa), pedra (comprimidos antidepressivos), crak, álcool. Não existe distinção dos sexos na utilização das drogas, todos usam e compartilham o uso.

Como acontece em todo grupo um líder é sempre eleito. E se tratando da vida nas ruas a coisa não poderia ser diferente. O líder é sempre o mais velho do grupo. Porém, a disputa pela liderança acontece de tempos em tempos. O líder é respeitado, mas o seu posto é sempre cobiçado.

Os meninos estão sempre disputando entre si para impor respeito e autonomia. Vão em busca de comida, dinheiro, drogas. Tem uma vida sexual bastante ativa e procuram manter o poder através do sexo.

As meninas têm um papel “secundário” nessa morada. Perambulam em busca de comida, dinheiro e drogas. Sexualmente são muito ativas e relaciona-se com vários parceiros ou elegem um companheiro. Foi observado que muitas meninas tem corte por todo o corpo, quando perguntadas sobre esse fato disseram-nos que se cortavam quando estavam muito triste ou se sentindo angustiada com alguma coisa ou algo.

A condição desses meninos (as) nas ruas são a pior possível. A maioria fugiu da violência causada por seus pais. Estão nas ruas por falta de apoio e proteção. São seres incompreendidos que sofreram (sofrem) pelo descaso e omissão da Família, do Estado e das Entidades que deveriam cuidar de seu bem estar. A maioria desses indivíduos sente o desejo e a vontade de sair das ruas, porém esbarram na falta de apoio e proteção.

Os transeuntes da praça são pessoas de todos os tipos e credos. Alguns tentam ajudar os meninos (as), outros vão à busca de drogas, sexo e diversão. Na praça já chegamos a fazer uma contagem de 29 pessoas. Entre esses vinte e nove estão crianças de 0 a 05 anos de idade, adolescentes da mais variada faixa etária e adultos.

A vida na feira é o “oposto” da praça. Na feira a situação é gritante. Também vivem em grupo, porém se dividem em subgrupos. Perambulam pelas ruas da cidade em busca de comida, dinheiro, sexo e drogas. Na feira as coisas acontecem e os indivíduos fazem acontecer a todo tempo e hora. Como na praça, na feira também existe um líder ou vários lideres.

Utilizam todo tipo de drogas, mas a dominante é a cola. Certa vez foram observados na redondeza alguns pés de maconha (canabis sativa). Não soubemos se era plantado pelos meninos (as) ou, se algum barraqueiro tinha plantado.

Na feira existe um Senhor chamado Seu Biu, (José Benedito Moura) ex-militar que tem uma barraca onde vende TV. Esse senhor “ajuda” e dá guarita aos meninos (as). Empresta dinheiro, guarda as roupas, permite que durmam na barraca etc. Resolve as broncas que ocorre com os barraqueiros e polícia. É considerado como “pai” para esses meninos (as).

Pela tarde o clima da feira é bem pesado. O uso de drogas é bem alto e o roubo acontece freqüentemente. O roubo feito pelos meninos (as) é passado para transeuntes bem aparentados que exploram a miséria alheia.

Os meninos da feira são muito mais aliciados para o roubo, venda de drogas etc. Estão sempre em brigas e disputas. Violentam-se uns aos outros.

As meninas vendem seus corpos em busca de ninharias. Utilizam todo tipo de drogas e traficam para si e seus companheiros. São constantemente violentadas.
A condição humana na feira entre esses meninos (as) é deplorável. A violência ocorre constantemente.

Na feira já chegamos a contar 25 pessoas. Entre essas pessoas encontram-se crianças de 08 a 12 anos de idade, além de adolescentes e adultos.

Diferente da Praça, na Feira esses indivíduos ficam mais dispersos e são mais agressivos, além de praticarem mais atos ilícitos como, por exemplo, roubo, tráfico, prostituição, etc. A idade também é semelhante aos da Praça. Na Feira a realidade é mais cruel. Aqui eles perdem a inocência mais cedo e se tornam àquilo que a sociedade quer que eles se tornem: marginal. Na Feira não há lugar para diversão, mas sim trabalho. A maioria desses indivíduos vem de uma família miserável, desestruturada e sem perspectivas de futuro em suas vidas.

Nos dias atuais, os meninos e meninas que habitavam a Praça foram expulsos do lugar após a construção do novo prédio do palácio do governo e da reestruturação da praça. Onde foram parar esses meninos e meninas?

Por isso, segundo Goffman (1975: pág. 11) “(...) A informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação, tornando os outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele esperará deles e o que dele podem esperar”. E porque, “(...) somente indivíduos de determinado tipo são provavelmente encontrados em um dado cenário social” (op.cit., pág. 11).

3. O QUE DIZ A LEI

Através da observação participante, o cotidiano desses indivíduos (meninos e meninas) de rua foram registrados para que possamos conhecer mais de perto, através das próprias percepções e experiências deles mesmos quem são, de onde vêm, porquê estão nesta situação, porquê permanecem nessa condição de marginalidade. Porquê meninos e meninas que possuem legislação para garantir seus direitos são encontrados nesse cenário social?

A questão da criança e do adolescente encontra na Constituição Federal de 1988 um bom respaldo sobre o cuidado e a proteção que devemos manter com nossos menores em situação de vulnerabilidade social. A obrigatoriedade em proteger os direitos de crianças e adolescentes é enunciada freqüentemente, destacando-se o artigo 227, que diz o seguinte: “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

O Estado manifesta seu compromisso como promotor dos direitos infanto-juvenil, através de programas e serviços de assistência integral à criança e ao adolescente, com a participação da sociedade civil. Porém, esta assistência deveria ser para todos que dela necessitam, não para aqueles que o Estado consegue capturar.

No ano de 1985 é fundada uma organização não-governamental, popular, autônoma, composta de voluntários, que através da participação das próprias crianças e adolescentes, buscam a conquista e a defesa de seus direitos de cidadania, é o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua.

O MNMMR não tem um lugar de nascimento específico no Brasil, ou tem um único fundador, ele é fruto de determinações históricas e articulação de grupos de base de educadores de rua ou engajados em diversos programas de atendimento; construído por diversas pessoas, independente de credo e crenças, técnicos de instituições oficiais e agentes sociais comunitários que desenvolviam no início dos anos 80 as experiências alternativas de atendimento a meninos e meninas em situação de rua.

Nos fins dos anos 70, a situação da infância e da adolescência pobres, a chamada “questão do menor” ou do “menino de rua”, já havia se tornado um problema social grave e complexo. O processo de modernização, industrialização e o modelo de desenvolvimento adotado pelo sistema capitalista geraram um crescimento acelerado das cidades, formando as grandes metrópoles e a concentração de renda, acentuando os níveis de pobreza.

O MNMMR está presente em 25 dos 27 Estados. Possui cerca de 80 comissões locais cadastradas, congregando cerca de 800 educadores filiados. As comissões locais utilizam, normalmente, espaços cedidos por outras organizações da sociedade civil ou residências dos próprios ativistas e educadores.

No ano de 1990 é criada a lei nº 8.069 que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente sancionado pelo Presidente da República. Nessa legislação é determinado no Título I, Art. 3º, que: “A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral...” (1997, pág 15). Mais adiante, nesse mesmo estatuto, no Título II, Capítulo I Art. 7º determina que: “(...) A criança e o adolescente têm direito a proteção a vida e à saúde...” (Idem, pág. 17). E ainda no Capítulo III, Seção I, Art. 19º esta escrito que “(...) toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio da sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente livre de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes” (Idem, pág. 20). A lei existe para garantir direito a esses indivíduos, no entanto, o fato de estarem nessa situação na qual vivem, na rua, sem proteções familiares, sanitárias e educacionais reflete as próprias contradições do contexto social a que estão inseridos. Essas crianças e adolescentes vivem em situações de risco e sem perspectivas futuras em termos de cidadania.

De acordo com Heller (1992: pág. 02) “(...) A sociedade não dispõe de nenhuma substância além do homem, pois os homens são os portadores da objetividade social, cabendo-lhes exclusivamente a construção e transmissão de cada estrutura social”. Dentro da história construída pelos seres humanos, a história de vida de um grupo ou de uma sociedade nos serve como explicitação da essência humana. Os meninos e meninas moradores de rua constroem uma estrutura de vida viável, nossos questionamentos pontuam acerca de como concretizam este fato.

A existência desse grupo e seu modo ou, estilo de vida, bem como as problemáticas que os motivaram para optarem por situarem-se à margem da sociedade. Será investigado os fatos concretos expressos no cotidiano de vida através do comportamento e experiências que vivenciam no cotidiano. “(...) A vida cotidiana (...) (é) como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles na medida em que forma um mundo coerente” (Berger: 1985, pág. 35). Por exemplo, à nível de organização política desses grupos, já foi registrado em pesquisa de campo preliminar a existência de um líder, no caso da Praça, e no caso da Feira do Rato, mais de um líder atua entre os adolescentes e crianças daquela localidade.

4. REFERENCIAL TEÓRICO:

Na vida cotidiana, o mundo é tomado não só como realidade concreta pelos membros que estão na sociedade, mas a ação subjetiva é dotada de um sentido que marca para sempre a vida (Berger, 1985; Goffman, 1988). O mundo se origina no pensamento e na ação dos indivíduos e por eles são vivenciado e considerado real.

Sendo assim, as identidades dos indivíduos passam a ter uma qualidade de identificação compartilhada no grupo social ao qual escolheram fazer parte para vivenciar suas emoções e realizar práticas cotidianas. No caso dos meninos e meninas de rua, percebe-se que os caracteres próprios e exclusivos dessas pessoas são estigmatizados, fazendo com que esses indivíduos estejam na condição de inaptos para a aceitação social plena.

De acordo com Goffman (1998, pág. 11),
Os gregos (...) criaram o termo estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. (...) Atualmente, o termo é amplamente usado de maneira um tanto semelhante ao sentido literal original, porém é mais aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal.

Assim, a perspectiva adotada parte da concepção que a condição de estigmatizados dos meninos e meninas moradores de rua se relaciona ao status moral que ocupam enquanto excluídos e marginalizados na nossa sociedade.

Esse estudo investiga um significativo fenômeno urbano contemporâneo através de uma perspectiva aparentemente simples de fatos e dados singulares que fazem parte da vida cotidiana de indivíduos, valorizando, com isso, tanto aspectos qualitativos dessa realidade, através das experiências e percepções que eles possuem, bem como dados quantitativos dessa problemática, buscando mostrar a complexidade da vida humana e seus significados para a vida social e cultural.

Para Da Matta (1991, pág. 17):
... ‘casa’ e ‘rua’ são categorias sociológicas para os brasileiros, (...) entre nós, estas palavras não designam simplesmente espaços geográficos ou coisas físicas mensuráveis, mas acima de tudo entidades morais, esferas de ação social, províncias éticas dotadas de positividade, domínios culturais institucionalizados e, por causa disso, capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas e imagens esteticamente emolduradas e insípidas.

Nossa herança mais terrível é a de levarmos sempre conosco a marca de um torturador que foi impressa em nossa alma e que esta sempre pronta para explodir em uma certa brutalidade dentro da sociedade, contra os indivíduos. Qualquer Ser desprovido de si passa a ser ninguém ao ver-se reduzido a uma condição desumana.
Velho (1987: pág. 17) coloca que,

(...) A Revolução Industrial, propriamente dita, criou um tipo de sociedade cuja complexidade está fundamentalmente ligada a uma acentuada divisão social do trabalho (hierárquica, grifo meu), a um espantoso aumento da produção e do consumo, à articulação de um mercado mundial e a um rápido e violento processo de crescimento urbano (Hobsbawn, 1975). Quando estiver falando em sociedade complexa industrial moderna estou me referindo ao tipo de sociedade surgida desse processo (...).

As cidades contemporâneas são a expressão desse modo de vida incorporados pelos mais diversos grupos e indivíduos. A vida nas cidades, com sua heterogeneidade produz um cenário social e cultural com uma gama de variedade de experiências, costumes e estilos de vida. Dessa forma as ciências sociais passaram a desenvolver conceitos e instrumentos de investigação da realidade que nos fornece a possibilidade de produzir conhecimento sobre experiências sócio-históricas específicas.

Enquanto em determinadas culturas ou sub-culturas o indivíduo se torna foco de uma ideologia central, em outras acontece o contrário. Essa função se torna uma peculiaridade econômica, política e simbólica. A noção de que os indivíduos escolhem ou podem escolher é a base para que se possa pensar no ser humano - menino e menina de rua - como uma idéia de categoria do todo e hierárquica. Ao mesmo tempo produto e reflexo de um contexto sócio-histórico contemporâneo.

E, sendo assim, quando se fala em hierarquia pode-se perceber que No estudo sociológico das pessoas estigmatizadas, o interesse esta geralmente voltado para o tipo de vida coletiva, quando esta existe, que levam aqueles que pertencem a uma categoria particular (Goffman: 1988, pág. 30). É nessa perspectiva que esse estudo pretende focalizar tanto a sociabilidade, a vida social e coletiva, que esses meninos e meninas de rua vivenciam para ter uma compreensão do que e como é desenvolvida e construída a categoria particular que eles pertencem dentro do contexto urbano.
Isto, porque,

(...) Muitos fatos decisivos estão além do tempo e do lugar da interação, ou dissimulados nela. (...) o individuo terá que agir de tal modo que, com ou sem intenção, expresse a si mesmo, e os outros por sua vez terão de ser de algum modo impressionado por ele (Goffman: 1988, pág. 12).

As proposições de Goffman (1988, pág. 21) dizem que (...) A sociedade está organizada tendo por base o principio de que qualquer indivíduo que possua certas características sociais tem o direito moral de esperar que os outros o valorizem. Isto, porque, (...) A vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos vivem, sem nenhuma exceção, qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho e físico (Heller: 1992, pág. 17)

A vida em sua cotidianidade é a vida do ser humano como um todo. O ser humano ao se inserir na vida cotidiana leva consigo todos os aspectos inerentes a sua individualidade e de sua sociabilidade. O indivíduo cotidiano é fruidor, ativo e receptivo, porém não têm tempo nem possibilidade de se perceber como parte e todo de uma sociedade. Pois, (...) a significação da vida cotidiana, tal como seu conteúdo, não é apenas heterogênea, mas igualmente hierárquica (Idem, pág. 18). Assim, a preocupação teórica dessa pesquisa também perpassa a questão da compreensão da hierarquia enquanto status estigmatizante de marginalidade que meninos e meninas de rua estão inseridos num contexto urbano, bem como focaliza relações hierárquicas dentro das próprias relações sociais que eles interagem entre si.
De acordo com Heller (1992):

(...) O homem nasce já inserido em sua cotidianidade. O amadurecimento do homem significa, em qualquer sociedade, que o individuo adquire todas as habilidades imprescindíveis para a vida cotidiana da sociedade (camada social) em questão. É adulto quem é capaz de viver por si mesmo a sua cotidianidade (pág. 18).

No caso desse universo das ruas a capacidade e habilidade que os indivíduos vivenciam a sua cotidianidade pertence a um estilo de vida que não necessariamente esta na fase adulta de suas vidas. Há uma sociabilidade que deve ser investigada para exatamente se compreender como essa cotidianidade é construída e vivenciada.

O mundo é formado por múltiplas realidades criadas pela cultura e pelo individuo. E, sendo assim, (...) Entre as múltiplas realidades há uma que se apresenta como sendo a realidade por excelência. É a realidade da vida cotidiana (Berger: 1985, pág. 38).A realidade cotidiana da rua é vivenciada por uma determinada categoria de indivíduos estigmatizados.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Existem diversos fatores que podem levar uma criança, adolescente ou adulto a viver e morar nas ruas. Desestruturação familiar, devido à falta de trabalho, moradia, e falta de condições de alimentação e saúde. Descaso do Estado e falta de políticas públicas voltada para população em situação de vulnerabilidade social. Desestruturação dos movimentos reinvidicatórios. Dentre diversos outros fatores.

O Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua passa por um grande desafio na atualidade: como contribuir para a melhoria e bem-estar de crianças e adolescentes em situação de rua?

Quando surge o MNMMR a luta era clara e efetiva. Porém, quando esse movimento se estrutura e consegue se expandir por todo o país mobilizando e sensibilizando, começa o verdadeiro desafio. Ao longo dos anos muito foi conquistado e muito desperdiçado. Em Maceió o MAMMR (Movimento de Apoio a Meninos e Meninas de Rua) após algumas crises internas se dissolve e a luta para ajudar esses meninos e meninas fica nas mãos de organizações de caráter duvidoso que precisam fazer mais e cobrar mais. De acordo com algumas meninas tem dono de organização não-governamental no município que abusam sexualmente de seus corpos, o que fazer? O que tem sido feito?

A mortalidade de crianças teve índices inaceitáveis na década de 80; a educação não era acessível a todos, como ainda não é, e muitos ficavam doentes por problemas ligados à falta de saneamento básico. As ruas estavam repletas de crianças e adolescentes que aí moravam ou trabalhavam e os jornais reproduziam inúmeras notícias da violência nas Febens de todo o país.
Iniciou-se uma mobilização social que chegou fortalecida ao Congresso Nacional no momento em que os deputados e senadores escreviam uma nova constituição federal. A constituição aprovada em 1988 incluiu um artigo, o 227, que definia a criança como prioridade nacional. Os direitos básicos da criança e do adolescente tinham que ser regulamentados numa legislação totalmente diferente do antigo Código de menores.

Alguns anos antes do Estatuto da Criança e do Adolescente ser escrito, os países ligados às Organizações das Nações Unidas (ONU) se juntaram para escrever as “Regras de Beijing”. Nesse Pacto, vários países do mundo concordaram que as crianças e adolescentes que se envolvessem em crimes deveriam ter um tratamento judicial diferenciado dos adultos. O ECA incluiu as idéias principais desse pacto na redação dos seus artigos, garantindo o direito do jovem ser julgado por seu crime, tendo, um advogado para defendê-lo. Caso fosse provada a infração, o adolescente receberia uma medida sócio-educativa, ou seja, uma punição. A gravidade do ato infracional é que determina se essa medida é mais dura ou mais leve cabendo ao juiz da infância e da adolescência a decisão final.

Nessa nova concepção de cidadania a sociedade é vista como um elemento participante no processo de luta pela garantia efetiva dos direitos humanos. Sendo assim, essa participação se dá a partir da atuação individual de cada cidadão, mas principalmente através de instituições especialmente desenhadas para servirem como ligação entre sociedade e Estado, no trabalho de transformação do que está na lei em realidade.

Hoje os meninos e meninas de rua não têm mais a Praça dos Martírios como morada, pois foram expulso dessa, devido à nova urbanização do local, porém a Feira do Rato continua cada dia mais habitado por esses indivíduos. Para onde foram os da Praça dos Martírios? Agora estão em todos os lugares da cidade, alguns adotaram a Praça Deodoro e a Praça da Faculdade como sendo seu mais novo habitat, outros perambulam pelas ruas em busca de comida, dinheiro, drogas, “liberdade”.

A partir do que foi observado, ouvido e vivido podemos perceber que a vida nas ruas por si só já é uma violência sem precedentes. Os meninos (as) que elegeram as ruas como sua casa estão nessa condição devido ao descaso e omissão, bem como, uma falta de organização sócio-cultural-familiar.


6. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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6.1. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

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