13 de julho de 2011

OYÁ POR NÓS - MÚSICA QUE HOMENAGEIA MULHERES GUERREIRAS - UMA INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA-MITOLÓGICA, CULTURAL E PSICOLÓGICA



Oyá por nós  

Composição: Daniela Mercury e Margareth Menezes

Ela assanha o céu
Tudo ela alumia
Ilumina a noite
Incendeia o dia
Ela veio do vento
Ela veio do vento
Ela veio do vento
Eparrê!
Oyá tetê
Oyá tetê oyá
Oyá tetê oyá
Oyá tetê
Oyá mulher
Oyá maria
Oyá beleza
Oyá alegria
Oyá nobreza
Oyá poesia
Oyá criança
Que se anuncia
Oyá toda terrra
Será que um dia
Oyá iansã
Oyá ave maria
Oyá tetê
Oyá tetê oyá
Oyá tetê oyá
Oyá tetê
Oyá que vem de longe
Oyá mulher guerreira
Oyá que é inteira
Oyá de se amar

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PREFÁCIO

Oyá Tetê, uma composição de Daniela Mercury e Margareth Menezes que faz uma homenagem as mulheres guerreiras, identificadas com as "filhas de Yansã" ou de "Oyá" - termos sinônimos em Yorubá. No sincretismo religioso está associada a Santa Bárbara, mártir do século terceiro d.C. e considerada pelos católicos como a santa protetora dos raios, tempestades e trovões.

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SÍNTESE HISTÓRICA: 

Filha de Iemanjá com Oxalá, sobrinha-neta do Rei Elempe  e de Torôssi, mãe de Xangô  foi princesa em Irá, Nigéria em 450 a.C. e conquistou com coragem e valentia o trono de Oió.

Foi um das três esposas de Xangô, de quem era prima. Sendo a mais fiel a ele, também  ajudou-o a conquistar os reinos, que foram sendo anexados ao Império Yorubá, até que
Xangô tentou invadir Nupe e Tapa, onde ela havia nascido. Oyá não permitiu a invasão   abandonando-o. Xangô não ousou a enfrentá-la.

Sabe-se também que, Oyá antes de casar com seu primo Xangô passou por vários reinos. Assim, em Ifé fora mulher de Ogum e com ele aprendeu e recebeu o direito de usar  a  espada. Já em Oxogbo, terra de Oxaguian aprendeu e teve o direito de usar o escudo.  Com Exu, aprendeu os mistérios do fogo e da magia, com Oxóssi aprendeu a pescar e com Logun-Edé aprendeu a pescar.
Partiu para o reino de Obaluaiê e tentou seduzi-lo, sem sucesso. Mas, aprendeu com ele  os mistérios da morte. Aprendendo a lidar com os eguns (espíritos  dos mortos). Dai partiu para Oió, reino de Xangô, que a despertou intensa paixão. Onde também aprendeu a amar verdadeiramente.

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LENDA:

Diz à lenda que após a morte de Xangô, antes dele torna-se Orixá, Oyá chorou demasiadamente e suas lágrimas formaram o grande rio  Oiá ou Niger, do qual tornou-se deusa após sua morte.

Sabe-se também que, o Guerreiro Ogum após ter sido abandonado por Oyá, na ocasião  em que ela apaixonara por Xangô, a perseguiu e quando a encontrou, tocou-a com sua vara mágica de ferro partindo-a em noves partes. Assim recebera o nome Yansã, que significa "a mãe transformada em nove". 

Diz a lenda também, que Oyá se queixava da dificuldade que tinha para ter filhos. Consultando um Babalaô (sacerdote) foi informada dos erros em seus hábitos alimentares, que quando era para Oyá comer cabra, ela comia carneiro. Sendo orientada a fazer uma oferenda, onde deveria usar um tecido vermelho, onde mais tarde serviria à confecção das vestes dos egúngún (espíritos dos ancestrais que se apresentam mascarados) no ritual da oferenda. Depois de cumprida a obrigação Oyá teria tido nove filhos.

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INTERPRETAÇÃO:

 Yansã ou Oyá é um Orixá feminino (Obirinxá) a deusa dos ventos, raios e tempestades.

O termo Orixá é a junção dos termos Ori (Cabeça) e Xá (Senhor, rei), logo Orixá significa Senhor da Cabeça, ou Guia, ou Mentor, ou Anjo da Guarda, dependendo da orientação religiosa. De forma geral a representação simbólica de um típico psicológico referencial, que identifica e inspira.

A mitologia africana, assim como a mitologia grega, indígena e hebraica crê na continuidade da vida pós-morte em dimensões imateriais, assim denominadas de céu, purgatório, inferno, planos ou cidades astrais, etc. Para os yorubás, assim como para os demais nações africanas, a vida continua após a morte do corpo ou Èmìe, em dimensões extra-físicas ou espaços do Òrun, divididos em nove. 

Esta crença fundamenta outra, a de que os Òkú, Òrun e Àgbagbà ou simplesmente antepassados e/ou ancestrais por continuarem vivos noutras dimensões mantêm relações estreitas com os seus descendentes aqui na terra. 

O culto  é a  homenagem aos ancestrais que serve de maneira geral, para a manutenção destes laços afetivos. Logo quando se diz que alguém é filho ou filha de determinado Orixá, quer dizer que a pessoa possuí características deste, que pode ser um ancestral seu, da mesma família, herdando ao longo de sua trajetória tais características.

Considerando as lendas e o histórico de Oyá, que viveu na África no século 400 a.C. ela pode ser definida como uma mulher vanguardista, além de seu tempo, já que numa sociedade dominada por homens aprendera tantas coisas, como usar a espada e o escudo, a caçar e a pescar, como também aprendera os mistérios do fogo, da magia e da morte. Sabedorias atribuíveis aos homens.

Mulher valente e guerreira lutou ao lado de seu amor Xangô, mas também em favor de seu povo, sua família e seus descendentes teve coragem de abrir mão de seu amor enfrentando-o e impedindo a invasão de sua cidade natal, já que aprendera a enfrentar a morte transformando-se com ela, em Yansã (mãe transformada em nove).

Logo vê-se que Oyá apesar de feminina possui também aspectos tipicamente masculinos numa integração que identifica as mulheres, assim como ela, guerreiras, que se impõem, enfrentam as dificuldades da vida com coragem. São as mulheres da rua casa, que sustentam seus filhos, seus dependentes, que defende suas convicções e seus afetos.

Como Oyá são as mulheres integradas, que reconhecem e expressam seus sentimentos e emoções, desde o ódio e a raiva que estronda como um trovão, e se manifesta como uma tempestade até o amor e ternura, que refresca e alivia como o vento. 

A integração dos opostos: masculino-feminino; ódio-amor; noite-dia; morte-vida. Integração esta representada pelo movimento, pela dinâmica. Tal qual trajetória de vida de Oyá. Suas paixões, seus amores, suas dores, suas guerras, suas derrotas, suas vitórias.

Por isso que, 

"(...) Ela assanha o céu
Tudo ela alumia
Ilumina a noite
Incendeia o dia
Ela veio do vento
Ela veio do vento
Ela veio do vento (...)"

Que significa que Oyá não passou despercebida por nenhum lugar, com sua luz, sua força, com seu fogo e vivacidade. Com sua nobreza, sua beleza, sua alegria.

"(...) Oyá tetê 
Oyá mulher
Oyá maria
Oyá beleza
Oyá alegria
Oyá nobreza
Oyá poesia(...)"

Além da mulher, da amante, da guerreira Oyá representa também a maternidade, já que vencera a infertilidade dando origem a nove filhos, por isso Yansã (mãe transformada em nove). Os noves filhos que representam sua fecundidade a partir da transformação  de mulher em mãe. 

" Oyá criança que se anuncia"

Por representar a maternidade, a força e a coragem a música faz também uma associação a outro símbolo de tais características, Maria de Nazaré.

"(...) Oyá toda terrra
Será que um dia
Oyá iansã
Oyá ave maria(...)"

Respeitando as características peculiares e história de Maria de Nazaré e de Oyá, a representação encontra fundamento a partir de uma perspectiva  da psicologia junguiana, quando consideramos as representações arquetípicas que servem de base modular para os fenômenos psíquicos culturais. Neste caso, o arquétipo da Grande Mãe -  deusa mãe; mãe terra; mãe natureza. Deusa da fertilidade que personifica a terra, o feminino. 

Assim podemos considerar que tanto Oyá quanto Maria representam para o inconsciente coletivo o arquétipo da Deusa-Mãe sendo modulada por suas respectivas culturas. Um encontro que só é possível pela tolerância à diversidade étnica, que reúne culturas diversas naquilo que lhe é mais semelhante, o fato de sermos todos humanos.

"Oyá tetê"
 Saudação a Oyá (Yansã)

"(...) Oyá ave Maria"
Oyá ave Maria, ou seja, Oyá faz saudação a Maria de Nazaré.


Por Marcelo Bhárreti.

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REFERÊNCIAS:


BARROS, Ana Lúcia Perri. Iansã. Disponível em: . Acesso em: 19/10/2010.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o minidicionário da língua portuguesa. 7ª ed. - Curitiba: Ed. Positivo; 2008.

OGUM, Antônio de. Vida e morte para os Yorubás. Disponível em: . Acesso em: 19/10/2010.
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